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O abismo entre o potencial e a realidade do trabalho remoto no Brasil

Descubra o que os dados revelam sobre as vagas remotas no país, quanto se paga em média e por que a infraestrutura muda tudo.

por Rodrigo Matheus

Eu estava olhando alguns números sobre o mercado de trabalho e me chamou atenção o tamanho da distância entre o que a gente imagina que pode ser feito de casa e o que realmente acontece no Brasil. A conversa sobre trabalho remoto costuma vir embalada em promessas de liberdade geográfica total, mas a estrutura do país conta uma história um pouco diferente.

Um estudo feito por pesquisadores do IBRE da FGV tentou colocar números nisso adaptando metodologias internacionais para a nossa realidade. Enquanto nos Estados Unidos o potencial teórico de ocupações que poderiam ser feitas de forma remota chega a 37 por cento, e países como França e Alemanha flutuam entre 28 e 29 por cento, o cenário brasileiro esbarra em barreiras bem mais concretas.

Quando os pesquisadores ajustaram o cálculo considerando uma infraestrutura mínima doméstica indispensável, ou seja, acesso contínuo a energia elétrica, internet e pelo menos um microcomputador em casa, o potencial brasileiro caiu para 17,8 por cento. Isso fica bem abaixo do mundo desenvolvido, mas ainda assim é superior aos 10,4 por cento de trabalhadores que efetivamente conseguiram operar no formato remoto no momento mais crítico da pandemia.

Por outro lado, o Ipea estimou em 22,7 por cento a fatia de todas as ocupações no Brasil que poderiam teoricamente ser exercidas à distância. Mesmo com essa margem para expansão, a prática esbarra em limitações materiais que afetam diretamente quem está buscando uma oportunidade.

Apesar dessa restrição de infraestrutura, a disputa por essas vagas continua feroz por causa da valorização do formato. Uma pesquisa recente mostrou que 65 por cento dos brasileiros trocariam de emprego para conseguir manter o home office, bem na época em que muitas empresas começam a pressionar pelo retorno ao modelo presencial.

Quem consegue achar uma vaga remota hoje percebe uma diferença brutal no bolso. Levantamentos recentes sobre o mercado indicam que vagas que aceitam trabalho remoto pagam em média 71 por cento a mais do que as posições presenciais equivalentes, com uma média salarial em torno de R$ 6.479 por mês.

Essa valorização explica por que plataformas de busca continuam registrando milhares de vagas abertas e por que tanta gente resiste quando a empresa decide acabar com o escritório em casa. O abismo entre a infraestrutura que temos e o modelo que a maioria quer manter vai continuar ditando as regras das próximas seleções.

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